terça-feira, 18 de setembro de 2012
pousou nos olhos
naquele inverno, pousou nos olhos a melancolia. não era porque fazia frio e nevava.
naquele inverno algo recobriu a membrana com uma simples camada. independente do clima e das estações, a visão e o coração retomavam o sentimento.
domingo, 26 de agosto de 2012
sábado, 25 de agosto de 2012
fragmentos de um discurso amoroso - Barthes
5. Sustento ao infinito, para o ausente, o discurso de sua ausência; situação em suma inaudita; o outro está ausente como referente, presente como alocutário. Dessa distorção singular, nasce uma espécie de presente insustentável: fico acuado entre dois tempos, o tempo da referência e o tempo da alocução: você partiu (do que estou me queixando), você está aqui (já que me dirijo a você). Conheço então o que é o presente, este tempo difícil: um puro pedaço de angústia.
A ausência dura, preciso suportá-la. Vou portanto manipulá-la: transformar a distorção do tempo em vai-e-vem, produzir ritmo, abrir a cena da linguagem (a linguagem nasce da ausência: a criança fabricou um carretel, joga-o e apanha-o, mimando a partida e a volta da mãe: um paradigma foi criado). A ausência torna-se uma prática ativa, um atarefamento (que me impede de fazer qualquer outra coisa); cria-se uma ficção com múltiplos papéis (dúvidas, recriminações, desejos, melancolia). Essa encenação linguareira afasta a morte do outro: um momento brevíssimo, dizem, separa o tempo em que a criança ainda crê que a mãe está ausente e o tempo em que já a crê morta. Manipular a ausência é alongar esse momento, retardar tanto quanto possível o instante em que o outro poderia resvalar secamente da ausência para a morte.
[Winnicott]
segunda-feira, 30 de julho de 2012
domingo, 15 de julho de 2012
Belo Horizonte
a solidão torna-se quase palpável quando o referencial vem de um casal outro.
a tecnologia abafa o silencio de estar só.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
inspiracao
aqui: http://sobreluzesepaisagens.wordpress.com/author/casadevir/
a casa deVir é um ateliê de paisagens. vivemos a casa como um lugar de invenção: na criação e produção de encantamentos diários trabalhamos para revelar luzes e paisagens
domingo, 24 de junho de 2012
carta para o tempo.
querido Makoto,
como vai? estive nesse últimos meses tão próxima de escrever para você. mas me obriguei um prazo de cinco anos de absoluto silêncio. talvez esse tempo seja suficiente para que as mudanças sejam profundas e nenhum dos meus atos reverbere qualquer forma de lembrança ou nostalgia.
esse ano de 2012, serão dois anos de ruptura. faltam mais três.
queria dizer que agora o compreendo. ao menos, um pouco dos conflitos e o sentimento que era estar em botucatu. faz sete anos que estive lá com você, tanto tempo. a idéia de uma universidade longe, estar só, os convívios. minha situação agora é diferente, não estou na graduação, mas acho que entendo um pouco desse ir e voltar. assim como foi botucatu - arujá, arujá - são paulo. agora posso dizer, pela primeira vez, que vivo só.
o sentimento de vida dupla é inevitável. são paulo é meu lar, mas a competição, ambição, falta de valores me faz agora detestar. ainda não sei bem me posicionar, sei apenas que acho que tenho capacidade de estar um bom tempo só. isso me faz acreditar que posso morar em qualquer lugar do mundo.
essa semana forjei um sonho. viver um ano no japão. foi o tempo que você permaneceu. lugar longe o bastante para não ter esse conflito de voltar constantemente. é uma pena a crise estar tão forte, espero que depois do mestrado possa ir.
sei que você casou. será que tem filhos? das minhas memórias, lembro de você dizer, enquanto fazia pipoca com hondashi, que poderia se orgulhar disso para seu filho, que saberia fazer bem pipoca. será que ele vai gostar de hondashi?
tão estranho acessar essa memória. ao mesmo tempo, parece que nunca existiu, mas passamos cinco anos juntos. cinco anos é um tempo significativo, não? cinco anos de convivência, cinco anos de esquecimento. se o desejo for forte o suficiente, vou escrever quando estiver aos 30 anos. data tão assustadora.
estou lendo os emails antigos. é curioso. dá saudade de estar apaixonada. mas ao mesmo tempo é tudo sem sentido e levemente idiota.
dos rumos da sua vida, penso também se você seguiu os caminhos do seu pai.
eis uma carta para o tempo.
K.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Idea della
Estudo e espanto (studiare e stupire) são, pois, aparentados nesse sentido: aquele que estuda encontra-se em estado de quem recebeu um choque e fica estupefato diante daquilo que o tocou, incapaz, tanto de levar as coisas até o fim, como de se libertar delas. Aquele que estuda fica, portanto, sempre um pouco estúpido, atarantado. Mas, se por um lado ele fica assim perplexo e absorto, por outro lado, a herança messiânica que ele traz consigo incita-o incessantemente a prosseguir e concluir. Esta festina lente, esta alternância de estupefação e lucidez, de descoberta e de perda, de paixão e ação, constituem o ritmo do estudo.
AGAMBEN, Giorgio. Idea della prosa. Milão: Feltrinelli, 1985. [Nova edição: Macerata: Quodlibet, 2002]. p. 53.
sábado, 2 de junho de 2012
carlinhos
faz doze anos que o conheço. quase o mesmo tempo da minha amizade mais antiga.
acho que de início ele sentiu-se atraído pela minha juventude. eu por sua vivência.
de algum jeito o acho ríspido, mas não deixo de me fascinar.
acho que se estivéssemos juntos por alguns dias, dificilmente haveria a conversa que a escrita propicia.
queria encontra-lo. ouvir o som de sua voz. lembro de seu pijama vermelho, o camel sem filtro e o whisky.
rememorando o baú da memória, lembro de me falar da sua psicóloga. e o fato de tê-la achado atraente e depois terem dormido juntos.
será que um dia irei vê-lo novamente?
quinta-feira, 31 de maio de 2012
conto da madrugada
aquela cidade continha um outro tipo de realidade noturna.
nas avenidas largas, pessoas caminhavam no forte sol pela tarde. a mulher do iogurte andava só pelas ruas, sempre com seu chapéu florido. os lençóis secavam em uma hora. nos bares, aposentados tomando cerveja, olhando o trânsito canino.
ao entardecer tudo mudava.
as cores se revestiam de um silêncio soturno. era como, recolhidas nas casas, dificilmente as pessoas se atrevessem a sair. os que arriscavam, corriam e eram responsáveis pelos riscos.
aconteceu de uma noite, ouvir alguém gritando. ininteligível. pensou talvez que, o homem que atacou e mordeu 80% do rosto do norte-americano estivesse voltado de algum lugar que não pertencesse. olhei da janela, sem camisa, caminhava e gritava como se rosnasse a um dono furioso.
ninguém ouviu, estavam todos dormindo.
não sabendo se era mesmo isso o que tinha presenciado, resolvi escrever esse pequeno testemunho, do homem que gritava sempre a mesma coisa e que caminhava pelas ruas como se fosse seu dono.
terça-feira, 29 de maio de 2012
Assinar:
Postagens (Atom)

