sábado, 5 de julho de 2014

Rainha de Espadas

aos pouquinhos, veio assim.
em tom crescente. allegro ma non troppo.

sábado, 21 de junho de 2014

inevitável

tudo passando tão rápido. menos de um mês para entregar a versão final do trabalho de dois anos e meio. misto de sentimentos. necessidade de mudar de ares. um certo medo e insegurança diante o futuro.
cada dia em uma casa.
cada dia um novo sentimento.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

incerteza

quanto ao futuro.

terça-feira, 3 de junho de 2014

a fragilidade das classificações

"Tinha vontade, explicava, de classificar essas etiquetas, mas a coisa era difícil: havia, é claro, a ordem cronológica, porém ele a considerava pobre, mais pobre ainda que a ordem alfabética. Tentara classificar por continentes, depois por países, mas isso não o satisfazia. O que pretendia era um encadeamento, de modo que cada etiqueta estivesse ligada à seguinte, mas sempre por um motivo diferente; por exemplo, poderiam possuir um detalhe em comum, um vulcão ou montanha, uma baía iluminada, uma flor específica, um mesmo friso vermelho e dourado, a cara gorda de um cavalariço; ou então ter um mesmo formato, uma mesma forma de grafar, dois slogans semelhantes ("A Pérola do Oceano", "O Diamante da Costa"; ou, ainda, uma relação baseada não na semelhança mas numa oposição, ou numa associação muito leve, quase arbitrária: um povoado minúsculo às margens de um lago italiano seguido de um arranha-céu de Manhattan, esquiadores sucedendo-se a pessoas que nadavam, fogos de artifício a um jantar à luz de velas, uma estrada de ferro a um avião, uma mesa de bacará a uma estrada etc. Não era apenas difícil, acrescentava Winckler; era sobretudo inútil: deixando as etiquetas misturadas e escolhendo duas ao acaso, podia-se estar certo de que teriam sempre pelo menos três pontos em comum."

[PEREC, Georges. A vida modo de usar. São Paulo: Companhia das Letras, 2009 - p. 49.]

quarta-feira, 28 de maio de 2014

R. (II)

já posso sentir saudade?

do olhar de soslaio da janela do seu quarto.
os copos na varanda, preenchidos com a chuva do dia seguinte.
a música carregada de outros tempos.
toque. delicado.

I.

tentar cultivar meu amor por I.
e seguir minha vida independente dela.

ela não sabe, mas. já existe um muro que não permite a transparência da fala e das emoções. eu sabia, mas fingi esquecer.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

retirar para construir - a síntese final

lembro vagamente agora sobre como aprendi sobre a cor branca na faculdade. como era inserir essa cor, tão neutra, mas que potencializa outras cores e tonalidades. acho que assimilei somente a ideia quando vi uma obra de Lucian Freud em minha frente. eram camadas e tonalidades para dar aquela forte impressão de carne, la chair. (meu espanto no Pompidou levou semanas)
*
acontece de agora de tentar entender como acontece o princípio da "retirada da matéria". M. fazia isso muito bem. construía quadros inteiros de superfície de grafite para depois retirar, traçar pela ausência.
estou naquele momento da pesquisa em que meses inteiros são deslocados para um arquivo morto. minha esperança é que, em algum momento da minha vida, eles voltem a fazer sentido. ou, que, no dia D. não seja inquirida por eles.

terça-feira, 6 de maio de 2014

poéticas do arquivo

"Uma utilização do arquivo faz da montagem, da colocação em relação do passado com o presente, um puro encontro de heterogêneos sem troca, outro que faz desses encontros uma versão consensual, onde os arquivos se dão como explicação acabada do presente. Penso então em uma poética do arquivo. Esta poética do arquivo recupera textos, imagens e nomes históricos e os conecta com novos eventos e outras imagens, sem pretender a totalidade do evento primeiro. O arquivo não é uma parada em um momento histórico, mas uma abertura para suas qualidades combinatórias, criativas – da história e das imagens. Como se os eventos não pudessem ser jogados fora, devendo-se guardar a virtualidade de algo que foi no passado, uma virtualidade do discurso, uma força criadora que surge dos próprios homens e que corre o risco de ser apagada como um todo. Guarda-se a potência de transformação do presente do acontecimento que transborda o tempo em que foi produzido."

Cezar Migliorin.
aqui

sexta-feira, 2 de maio de 2014

R.

gosto da penumbra pela manhã.
e por perguntar se ainda procuro desertos.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

abril

querida L.,

sinto saudades imensas de você. acho que você é a única pessoa que conheci que partilha esse sentimento de ilha. as vezes tão desolador.
abril foi um mês festivo. teve o nascimento de uma criança e atos mergulhados em euforia. também houve crises frequentes em relação ao amor. defini aqui também um ninho afetivo, localizado nesse pequeno apartamento.
hoje faz seis meses que eu mudei para cá.
estou retomando os trabalhos aos poucos. não tenho a sua coragem. ainda me escondo nos livros. mas eu ainda acredito sair da concha aos poucos. talvez seja essa a minha salvação. tenho fé.

quando puder, me mande alguns dos seus pensamentos. mesmo telepaticamente.

com amor,
C.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O livro do chá

(...) Na arte, a importância do mesmo princípio é ilustrada pelo valor da sugestão. Ao deixar algo não dito, é concedida ao observador a oportunidade de completar a ideia; desse modo, uma grande obra-prima prende sua atenção até você ter a impressão de ser realmente parte da obra. O vácuo está ali para que você possa entrar e preenchê-lo completamente com sua emoção estética. (O Taoísmo e o Zen - p. 60-61)

O zen, com sua teoria budista da efemeridade e sua busca pelo domínio do espírito sobre a matéria, aceitou a casa apenas como um refúgio temporário para o corpo. O corpo em si era somente uma cabana no ermo, um abrigo frágil que se faz amarrando hastes de gramíneas que crescem por toda parte - e, quando as amarras se dissolviam, as hastes se decompunham no ermo original. (O aposento da cerimônia do chá - p. 77)

No aposento de chá, fica a cargo de cada conviva completar o efeito total em relação a si mesmo através da imaginação. Desde que o zen se tornou a corrente de pensamento predominante, a arte do Extremo Oriente evitou intencionalmente a simetria por considerá-la expressão não somente de completude, como também de repetição. A uniformidade de um desenho era considerada fatal para o viço da imaginação. Assim, paisagens, pássaros e flores tornaram-se temas favoritos de pinturas em detrimento da figura humana, e esta última está presente apenas na pessoa do próprio observador. (p. 80)

A apreciação estética do incompleto não teve origem no chanoyu. Mesmo no clássico Ensaios sobre a ociosidade (1331, aproximadamente) podemos encontrar a afirmação: "Em todas as coisas, a completude de todos os detalhes não é desejável; aquilo que é deixado simplesmente inacabado prende o interesse". (Posfácio de Hounsai Genshitsu Sen - p. 135)

OKAKURA, Kakuzo. O livro do chá. São Paulo: Estação Liberdade, 2008.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Masao Yamamoto

Conheci a obra de Masao Yamamoto não me lembro bem ao certo, mas sei que foi pela internet. Foi uma daquelas imagens, puxadas ao acaso, que aparecem junto à pesquisas não muito bem delimitadas, e que trazem as vezes agradáveis surpresas. A imagem era de uma pequena floresta, aparentemente em uma planície. Na entrada, em frente as árvores, um tori. Conhecido como um portal entre o mundo terreno e o plano sagrado, espiritual, o tori muitas vezes encontra-se na entrada dos santuários xintoístas.

Acredito que essas informações não me passaram pela cabeça quando vi essa imagem. Pensei no contraste, na força de tantas árvores altas e frondosas, nascerem em um lugar, aparentemente inóspito. Essa foto, em especial, faz parte da série Kawa=Flow, em que Yamamoto diz que são reflexões sobre o mundo aonde estamos e ao mundo em que vamos no futuro.

A influência do budismo e sobretudo o Zen estão presentes em todas as suas séries como A box of Ku, Nakazora e Kawa-Flow. Nessa última série, no site do artista, um bonito relato sobre aquilo que o move filosófico e espiritualmente: a transição da natureza, um poema Haiku do monge Ryokan, o ciclo de vida de uma gota que cai das montanhas e integra os mares.

Não é necessário saber qualquer informação prévia quando estamos diante das fotografias. Muitas são em pequenos formatos, para que a contemplação ocorra de forma íntima, com o nariz próximo ao vidro. Desse modo, percebe-se os rasgos na fotografia, as beiradas irregulares, as incisões no papel fotográfico (na gelatina de prata) que transparecem em uma cor diferente daquela do monocromático preto e branco.

Tanto poderia ser dito sobre o método de trabalho e quanto da estética japonesa encontra-se inserida no seu trabalho poético. Mas acredito que não seja necessário. Presenciar, sem pressa e silenciosamente, já basta para compreender o pequeno mundo do artista. Está tudo ali, em cada imagem a ser contemplada.

Site do artista: http://www.yamamotomasao.jp
Exposição na Galeria Marcelo Guarnieri. Al. Lorena, 1966 - São Paulo - De 7/4 a 5/5/2014

segunda-feira, 31 de março de 2014

de segunda a um ano

Numa conferência sobre Zen-budismo no inverno passado, o dr. Suzuki disse: "Antes de estudar Zen, homens são homens e montanhas são montanhas. Enquanto se estuda Zen as coisas se tornam confusas: não se sabe exatamente o que é o que e qual é qual. Depois de estudar Zen, homens são homens e montanhas são montanhas."

Depois da conferência foi feita a pergunta: "Dr Suzuki, qual é a diferença entre homens são homens e homens são homens e montanhas são montanhas depois de estudar Zen?"

Suzuki respondeu: "A mesma coisa, só um pouco como se você tivesse os pés um tanto fora do chão"

[de segunda a um ano - John Cage]